CULTURA

Escritor passense lança livro em Belo Horizonte

BELO HORIZONTE (MG) - Antonio Barreto se considera hoje um “bebedor socialmente aceitável”, mas chegou a protagonizar longas “reuniões” regadas a muita cerveja, cachaça e tira-gosto. “Já fui bom de copo, de sair sexta no fim de tarde e voltar para casa domingo na hora do Chacrinha”, lembra o escritor. Ele viveu a boemia de Belo Horizonte nos anos 1970, conheceu muita gente, viu e ouviu muita coisa. Por conta desse currículo, foi escalado para escrever 'Centro', livro no qual reúne memórias das andanças (e goles) pelo chamado “baixo Belô”. O lançamento será hoje, na Livraria Quixote, em BH.
O título integra a série “BH. A cidade de cada um”, pela qual foram publicados outros 23 livros que ajudam a contar a história da capital mineira por meio dos olhares de cada autor, entre eles os dedicados a Lagoinha, Mercado Central, Rua da Bahia, Livraria Amadeu, Cine Pathé, Morro do Papagaio e Serra do Curral. Em Centro, Barreto percorre o universo do copo lagoinha, ovo cozido e mesa de lata para reconstruir o clima, os anseios e as crises daquela época, evidenciando a relevência dos botecos para a cidade.
“Por que o bar para situar determinadas histórias? O bar, principalmente nos anos 1970, era espaço de resistência e transgressão, era onde nos refugiávamos naquele tempo de opressão. Tramamos muitas coisas na mesa de bar. Sempre foi um local de compartilhamento, divergência, sonhos e esperanças. Tentei fazer um pouco o retrato de época da minha geração e onde caberiam todas essas coisas é o boteco mesmo. Inclusive, já é notório que Belo Horizonte é a cidade dos bares”, confirma Barreto.
O escritor demorou cerca de três meses para concluir o livro. Não fez pesquisas, limitando-se a consultar mapas de velhos catálogos telefônicos para se lembrar da localização de alguns bares que frequentava. “Esse livro é fruto de lembranças, coisas que vêm do coração e das minhas lembranças”, define. Mineiro de Passos, Sul do estado, o autor chegou a Belo Horizonte justamente nos anos 1970, mas para jogar futebol no América. Foi morar na concentração do clube, próximo do Parque Municipal.
“Num jogo contra o Valeriodoce, arrebentei o joelho e minha carreira acabou”, lembra. Decidiu ir para Passos, terminou o ensino médio por lá e retornou a BH para prestar vestibular para história. “Cismei de ser escritor. E achei que teria de fazer história”, diz. Morou numa quitinete no Edifício JK, numa república no mesmo prédio, no Hotel Londrino (na Avenida Santos Dumont) e num pequeno quarto na Avenida Olegário Maciel. Morou também na Lagoinha, perto do rendez-vous de uma polonesa que tocava Chopin.
Rolê
“Naquele tempo, boteco era uma confusão e uma profusão”, elogia. Hoje, o autor, que não mora mais no Centro, acha um tanto estranho passar por lá. “O que mais me entristece é ter de andar com medo de que algo ruim possa acontecer. No meu tempo a gente saía noite afora e não era assaltado. Os medos eram outros. Eram os arapongas do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), mas que a gente sabia quem eram”, recorda.
Barreto, que tem 59 anos, anda de ônibus ocasionalmente e, às vezes, arrisca um “rolê pela noite”. “É agitado demais, não dá para conversar direito. Fora as pessoas digitando coisas em celular, tablet. A conversa não rola. Talvez por isso esse livro soe meio surrealista. Mas não sou saudosista, pois sei que tudo muda”. De toda forma, ainda não se considera fora de combate: “Bebo uma cervejinha aqui, outra ali, de vez em quando um vinhozinho”, conclui.
Memórias
Quando chegou a Belo Horizonte, nos anos 1970, Antonio Barreto foi trabalhar numa gráfica de mimeógrafo chamada Copibel, na Galeria do Ouvidor, no Centro da cidade. Lá conheceu muitos escritores e começou a enveredar pelo universo das letras. Com as memórias que guarda do local, ele pretende escrever outro livro, provisoriamente 
intitulado Beagandaia.
A amizade
Muita gente vai ler Centro como um livro sobre botequins e sua mitologia. Nada contra: os bares são mesmo o cenário que sustenta as histórias e memórias de uma certa BH de muitas gerações. Com lembranças divertidas, casos, “mentira e tudo”. Mas o livro de Antonio Barreto, servido como uma boa rodada de chope, com direito a humor e melancolia, é sobretudo um elogio da amizade.
Barreto é poeta. Dos muito bons. Seu trato com a linguagem é tão criativo que parece espalhar lirismo em todas as situações. Por isso, ao afundar na memória afetiva dos anos 1970 em diante, ele traz pelas mãos os amigos que partilharam momentos especiais da vida da cidade. Fosse uma crônica da boemia, já seria ótimo. Mas o poeta passa a régua da inteligência e da emoção e deixa apenas o melhor das pessoas.
A poesia da prosa de Barreto é lúdica, brinca com as palavras e com as ideias. Mas é também narrativa, descritiva, que relembra casos, enumera lugares, nomes de bares, tira-gostos, canções, endereços. E, é claro, gente. Entre vivos e mortos, todos se salvam e se encontram nas páginas de Centro. Os poetas, artistas, jornalistas, escritores que vendiam livros de mesa em mesa. As moças.
Não que Barreto fuja dos pileques, das carraspanas, das bebedeiras e gandaias. Mas a esbórnia, com a geografia belo-horizontina a conduzir os passos e tropeços, é sempre território de trocas humanas entre gente de ofício, inclinação e idade diferentes. O papo vai indo, vai fondo, embalado por canjibrinas, deixando sempre claro que o melhor era mesmo o encontro. Tudo o mais era pretexto.
A cidade dos bares e dos amigos foi também uma urbe literária. Os escritores estavam em todo lugar, criando coisas interessantes, poetando, prosando e até filosofando, sem deixar obra no papel. Barreto conhecia todo mundo e era, entre os pares, um dos mais promissores. Cumpriu parte da sina em livros ótimos, outra na poesia do dia a dia. Centro é uma espécie de síntese, que merece um brinde.
'Centro'
Lançamento do livro de Antonio Barreto. Neste sábado (05), às 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi). O livro é vendido por R$ 20. Informações: (31) 3227-3077.
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