OPINIÃO

Ética no esporte

Por Samuel Sabino e Roberto Armelin*
Talvez você já tenha ouvido a expressão “o esporte forma caráter”. Porém, já parou para se perguntar de onde ela vem? Por que alguém ligaria o esporte ao caráter, a moral, a uma postura ética, em primeira instância? Para chegar a esse entendimento, o ideal é começar definindo as razões para a ética e para o esporte. A ética tem como sentido a condução da vida e tem seu propósito maior na conquista da felicidade. Já o esporte tem seu sentido na saúde e bem estar, e para o seu propósito a formação do sujeito ético.
O esportista busca a felicidade através da vitória, acima de tudo - o que já é o fim ético por si só. Porém, ele ainda é uma pessoa que tem seu meio de vida dentro de regras de conduta, trabalho em equipe, respeito aos adversários e torcida, ou seja, um comportamento que o leva à vitória de forma justa e coerente com as regras que escolheu seguir. Essas são as características de um sujeito ético, em quem o esporte acaba por potencializar a busca pela felicidade intrínseca ao indivíduo.
Olhando dessa forma, ética e esporte são extremamente ligados. O esporte é realmente um potente construtor do caminho ético. De acordo com os primeiros filósofos gregos, o ser humano nasce vicioso, com uma conduta baseada no erro, e a partir disso, os pais, mestres, professores, ou treinadores, nesse caso, têm o dever de identificar e corrigir esses erros de conduta. Temos no esporte um meio prático, coerente e potencializador desse aprendizado. Através da prática esportiva, o professor incute a boa conduta no indivíduo vicioso, tornando essa atividade extremamente importante na formação, sobretudo nos primeiros anos de vida.
Um indivíduo vicioso está sujeito a muito mais infelicidade em sua própria vida, o que o leva a lidar mal com o próximo e levar muito mais infelicidade para os que estão ao seu redor. O vício é o erro, a má conduta. Para nós, brasileiros, ou mesmo para os sul americanos, pode-se traduzir na forma da “malandragem” ou o tal do “Jeitinho Brasileiro”, por exemplo, que é uma má astúcia muitas vezes celebrada nos países da américa do sul (“la mano de Diós”, ou melhor: de Maradona), quando na verdade não passa de uma postura egoísta e sem méritos.
Isso, portanto, não é um defeito exclusivamente brasileiro. Os gregos, inclusive, já demonstravam isso em seus mitos, o que tem uma importante repercussão ao longo da história, como foi observado por Joseph Campbell em sua teoria da Jornada do Herói, um ciclo de atividades que representa ciclos comuns à vida de qualquer pessoa, e que eram alegoricamente narrados como histórias na antiguidade.
Para Campbell, a jornada de vida de todo ser humano repete alguns passos que são iguais, em vários pontos, para todo mundo, e eles sempre estão ligados ao enfrentamento e superação de um obstáculo, que quase sempre é interno e tem a ver com um vício moral. Na vida cotidiana, o esportista pode buscar um grande contrato, jogar uma competição mundial. Para os gregos, esse exemplo universal era bem definido e representado na Odisseia e nos Doze Trabalhos de Hércules. Essas são histórias famosas, nas quais os heróis, Odisseu em uma e Hércules em outra, passam por provações até superar seus vícios e só assim se qualificarem para alcançar a felicidade.
Dentro do campo (ou da quadra, da piscina, tatame, e etc...), o desafio não se limita a superar o(s) adversário(s), mas implica com igual importância a luta contra a conduta que só pensa em si mesma, que abandona o outro e só busca o lucro pessoal, seja ele financeiro ou desportivo: a vitória “de qualquer jeito”, através de atalhos ou trapaças. É o que acontece quando um atleta se aproveita de um erro de arbitragem, simula uma falta, induzindo a arbitragem em erro, ou se beneficia de qualquer infração das regras da modalidade desportiva. A conduta ética ideal é a da autocorreção, mesmo que haja um prejuízo desportivo imediato na disputa. Por exemplo, um jogador pode “cavar” um pênalti inexistente, e com essa marcação incorrera, ser beneficiado, potencialmente ganhando vantagem decisiva em um jogo difícil; ou prezar pela conduta ética correta e buscar a vitória sem esse artificio, assumindo o risco da derrota.
Talvez ele perca o jogo? Sim, mas a conduta vem em primeiro lugar. A intensão é o que conta dentro do campo. Isso tem um peso de responsabilidade e pressão dentro do jogo, tanto de adversário quanto de companheiros, e para o esportista tomar a atitude mais nobre é muitas vezes um dilema difícil de ser vencido. A condição se estende para fora do campo, quando o prejuízo afeta as torcidas, que quase sempre questionarão o jogador por ter escolhido ser ético e ter “perdido a chance de ganhar”, mesmo que se saiba que seria uma vitória injusta.
Muitas vezes, sobretudo em esportes populares, o inconsciente coletivo da sociedade, por vários segmentos, demandarão do esportista a conduta menos nobre, a da trapaça. Afirma-se que isso “faz parte do jogo”, quando na verdade a atitude diz muito mais sobre a condição ética daquela sociedade. Evidencia-se que a cultura abraça o erro, a corrupção, o crime, que é conivente com valores errados, sobretudo quando os traz vantagens, mesmo que em situações mais simples.
O peso do dilema ético é uma dificuldade do esportista, tanto quanto treinar seu corpo. Treinar sua mente e conduta é igualmente desafiador, pois só assim ele se desvincula de valores errados, perpetuados em uma sociedade falha, e busca através de seu modelo, incentivar uma conduta superior no jovem: sejam aqueles que vêm o atleta como exemplo e querem praticar a mesma modalidade desportiva, sejam aqueles que torcem pelo êxito do atleta. O caso é que atualmente a própria sociedade tem buscado uma proximidade maior com a conduta nobre dentro do esporte, e cada vez mais se cobra dos esportistas que se siga esse modelo positivo. É uma mostra da mudança social que vai de fora do esporte para ele, e vice-versa.
A emoção e a legitimidade do esporte, que fomenta a potência de praticar e torcer, está ligada à imprevisibilidade do resultado desportivo, que só é total e real quando as condutas são éticas, quando há igualdade de oportunidades agindo para que chances sejam igualmente adequadas em ambos os lados de uma competição. Assim, o esportista realmente melhor preparado é quem tem chances de vitória, mesmo com o acaso agindo como intensificador da emoção de se acompanhar o esporte. A espontaneidade não surge de um cenário onde há o vício agindo para trapacear. A verdadeira vitória está em justamente se superar os obstáculos competitivos dentro das regras da modalidade desportiva. O vencedor só é realmente vencedor se ele enfrenta de igual para igual seu adversário. O lucro maior está aí.
Uma questão relevante que se coloca nesse prisma é: qual a cultura ética a sociedade quer praticar, o que determina como introduzir a conduta ética aos jovens e, pois, usar o esporte, essa potente ferramenta, para desenvolver a conduta ética das novas gerações.
Queremos gerações mais éticas ou a competição pelo resultado independentemente do meio usado?
Nota: Para abordar o tema, o IBDEE irá realizar no dia 9 de novembro, o evento “Direito, Ética e Vinho”, onde enfatizará a ética no esporte, sobretudo, no futebol. Há disponibilidade para cobertura da imprensa.
* É fundador da consultoria Éticas Consultoria, filósofo, mestre em bioética e professor.
* É advogado, um dos fundadores do IBDEE, ex-diretor jurídico do São Paulo FC, presidente da Comissão de Direito Desportivo do IASP, professor de Direito Processual Civil e Processo Desportivo da PUC/SP, mestre e doutorando.
- Toda opinião divulgada neste espaço é de total responsabilidade de quem a emite.
- Esta opinião pode ser lida também no Facebook (Ézio Santos e passosmgonline) e pode ser compartilhada.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

05
07
18
15
11
B
E
08
24-
WELLS---160816
22-
13
03
09
Yama-16.03.14

 

 

 

 

Leia mais

Concessionária inicia...
DIVINÓPOLIS (MG) - A AB Nascente das Gerais, responsável pela administração da Rodovia MG-050 no trecho que corta o município de Divinópolis, iniciou os serviços preliminares às obras de duplicação da rodovia entre os km 123,56 e km 124,92. Além da duplicação,...
Cursos oferecidos pelo Senar...
Período de 26 de fevereiro a 3 de março FORMAÇÃO PROFISSIONAL RURAL PROMOÇÃO SOCIAL Trabalhador da mecanização agrícola / TAP - Operação com implementos SICOOB AGROCREDI (35) 3559-2727 26/02/18 a 02/03/18 Divisa Nova Trabalhador de apoio à...
Gestor de esportes do CPN...
PASSOS (MG) - O gestor de esportes do Clube Passense de Natação (CPN), Marcel Cardoso Faria, participou nesta sexta-feira (23), de duas reuniões em Belo Horizonte. O profissional representou o clube vermelho e branco na Assembleia Geral Ordinária da Federação Mineira de Vôlei (FMV) e esteve presente no...
Prefeitura entrega documentos...
SÃO S. PARAÍSO (MG) - O prefeito de São Sebastião do Paraíso, Walker Américo Oliveira, recebeu na manhã desta sexta-feira (23), o diretor regional do Serviço Social do Comércio (Sesc/MG), Luciano de Assis Fagundes e a assessora jurídica da entidade, Poliana Oliveira Fonseca, para...
Passos está em dia com...
PASSOS (MG) - A administração municipal cumpre todos os prazos referentes à conta de gastos da Educação entrando num seleto grupo de municípios brasileiros. Passos é uma das 800 (15,5%) cidades brasileiras que cumpriram todos os deveres e prazos em relação ao sexto bimestre de 2017 ao Fundo...
Dirigentes viajam para...
PASSOS (MG) - Quatro representantes do Novo Horizontino de Passos viajaram na manhã deste sábado (24), para Poço Fundo, no Sul do Estado, onde participaram da reunião do Congresso Técnico da 2a. Copa Alterosa de Futebol, com início previsto para às 9h, no Centro Pastoral. Os dirigentes da equipe do...
Fiscalização da Arsae não...
CARMO DO RIO CLARO (MG) - Os vereadores reuniram-se nesta quinta-feira (22) com o agente de Fiscalização da Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e de Esgotamento Sanitário (Arsae) de Minas Gerais, Marcelo de Freitas Oliveira, que exclareceu sobre a fiscalização, em caráter...
Paraíso: Projetos...
SÃO S. PARAÍSO (MG) - A Prefeitura de São Sebastião do Paraíso, por meio da Secretaria Municipal de Educação, retoma no dia 5 de março as aulas do projeto 'Xadrez nas Escolas' em oito unidades na zona urbana, quatro na rural e o distrito de Guardinha. Cerca de 4.500 alunos deverão ser...
Campo de Bom Jesus recebe...
BOM JESUS DA PENHA (MG) - “Este foi mais um compromisso assumido e cumprido com a comunidade de Bom Jesus dos Campos, distrito de São José da Barra. É uma alegria muito grande vermos a satisfação das pessoas aqui dos Campos recebendo a iluminação do Estádio Municipal Antônio...
Operação Tapa-buracos...
PASSOS (MG) - A Prefeitura de Passos, através Secretaria Municipal de Obras, Habitação e Serviços Urbanos, divulgou serviços executados nas vias públicas desde segunda- feira (19), e que englobam todas as necessidades de pavimentação urbana, como o serviço de Tapa-buraco em ruas, avenidas de...