OPINIÃO

Opinião: O sopro de morte da estrela (PT)

Por Paulo Cézar Fonseca*
No dia 31 de março/1º de abril de 2014 lembramos os 50 (cinquenta) anos do golpe militar que, com a justificativa de livrar o Brasil do comunismo, implantou, com a força de canhões e baionetas, uma ditadura civil/militar. Em nome da ordem (para as massas) e do progresso (para alguns), o regime torturou, matou, exilou e marcou para sempre a vida de quem ousou contrapor o estado de exceção implantado com a força das armas. Os alvos preferenciais dos órgãos de repressão foram intelectuais de esquerda, estudantes e lideranças sindicais dos trabalhadores. O Congresso Nacional chegou a ser fechado, diversos parlamentares foram cassados, partidos políticos foram extintos, a eleição para presidente passou a ser indireta, ou seja, através do colégio eleitoral formado apenas por deputados e senadores distribuídos em dois partidos: MDB, que ficou conhecido como partido do sim, e ARENA, que ficou conhecido como partido do sim senhor. Ou seja, o MDB representava o limite de posicionamento contra o Governo ditatorial. E não se tratava de uma linha imaginária de consenso, tratava-se de uma realidade imposta pela força. Quando correu risco de perder o controle do Congresso Nacional, o regime criou a figura do senador biônico, que era indicado e não passava por eleição direta. Para completar, governadores e prefeitos de capitais e cidades localizadas em áreas consideradas de segurança nacional passaram a ser nomeados, extinguindo-se as eleições nestes locais. Dos biônicos, ainda subsistem, como diria Leonel Brizola, alguns filhotes da ditadura, como Paulo Maluf e José Sarney.
A ditadura provocou danos irreparáveis às instituições e às pessoas que foram perseguidas, principalmente aquelas que foram submetidas à tortura. Na década de 90, não me recordo o ano, assisti uma palestra de Geraldo Vandré, na UNESP, campus de Franca. O tema que ele abordou foi direitos autorais. Após a explanação vieram as perguntas e Vandré foi enfático: a sua música (Pra não dizer que não falei das flores) é um poema escrito sem qualquer conotação política e que foi indevidamente utilizado como música de protesto; que jamais deu autorização para que fosse usada como hino revolucionário; que respeita e admira as forças armadas brasileiras. Ao final de sua palestra, Vandré recitou o poema Fabiana, escrito em homenagem a FAB – Força Aérea Brasileira. Penso que boa parte dos que ficam aí nas redes sociais reverenciando a ditadura não têm noção do que foi a supressão da democracia e os recursos utilizados para calar a voz dos lutadores, como o pau-de-arara, a cadeira do dragão, a palmatória, o telefone, o afogamento, a agulha debaixo das unhas, o bira de cigarro na sola dos pés e outros. 
Mas a ditadura iniciada em 1964 não serviu apenas aos militares. Ela serviu à burguesia da época, principalmente no controle dos trabalhadores. A greve foi proibida e qualquer manifestação dos trabalhadores era tratada como caso de polícia. Por isso ditadura civil/militar, pois a repressão esteve a serviço de uma classe social, a que detinha o poder econômico. O aniquilamento das forças progressistas através dos órgãos de repressão foi brutal e o convencimento da população foi facilitado. O Governo controlava os meios de comunicação através da censura e investia fortemente na propaganda positiva do regime ditatorial, feito principalmente pela Rede Globo de Televisão. 
Não era fácil romper com tudo isso. O executivo federal detinha um poder quase absoluto, pois tinha o controle do Legislativo e amarrou o judiciário em um arcabouço legal que não assegurava as liberdades individuais, impedia livre associação em sindicatos e partidos políticos e, ainda, assombrava os que ousavam resistir, inibindo sobremaneira as manifestações populares.
No entanto, a mordaça de qualquer regime de exceção não dura para sempre e 14 (quatorze) anos após o golpe de 64 eclode no ABCD paulista as primeiras grandes greves após os anos de chumbo da ditadura civil/militar. Antes disso, é claro que houve manifestações e alguns levantes populares, mas, por sua magnitude, pelo caráter radical e popular das manifestações, pela grandeza de reunir em assembleia mais de 60 mil metalúrgicos num estádio de futebol e desafiar a lei de segurança nacional, considero que a assembleia dos metalúrgicos de 16 de março de 1980 foi o sopro de morte da ditadura militar. Este episódio abriu a porteira para que outros movimentos eclodissem e o povo brasileiro reconhecesse novamente a força da organização popular. A partir dali vários acontecimentos históricos se sucederam, culminando na redemocratização do país, fechando um ciclo de ditadura e transição com a eleição do operário que liderou as greves de metalúrgicos do ABCD paulista no final da década de 70.
Em 2002 Lula foi eleito presidente da República com amplo apoio popular e logo abandonou as massas e chamou para assentar-se em sua mesa velhas raposas, que tanto contribuíram com a ditadura civil/militar, dentre eles Maluf, Sarney, Delfin Neto e Collor de Melo. Os programas sociais que deveriam ser meio para erradicar a miséria neste país, como o Bolsa Família, viraram fim para que os mais pobres sejam mantidos no cabresto eleitoral. Há que se reconhecer que os governos Lula/Dilma avançaram em questões sociais se comparados com o Governo FHC. Entretanto, os governos petistas não mexeram na estrutura da sociedade e o Brasil continua sendo campeão em desigualdade social. Com o PT, os ricos ficaram mais ricos, a classe média empobreceu e os pobres continuam muito pobres. A riqueza continua concentrada nas mãos de uma minoria, a mesma que apoiou e se beneficiou da ditadura. O PT nasceu como um partido revolucionário, assumiu o poder e se transformou em um partido da ordem. Os 12 (doze) anos de Governo do PT foram extremamente prejudiciais à organização dos movimentos sociais. Sem disparar um único tiro, Lula segurou as massas, aniquilou a CUT, comprou o MST e a UNE, comprou com o mensalão a reforma da previdência que FHC não conseguiu aprovar e segue, com a impopular Dilma, avançando no projeto neoliberal iniciado por Collor, com a privatização de aeroportos, rodovias, hospitais universitários, etc.
É fácil perceber que o programa revolucionário e popular do Partido dos Trabalhadores deu lugar ao projeto de poder de sua carcomida cúpula. As últimas denúncias envolvendo a compra superfaturada de empresa pela PETROBRAS e a história do deputado André Vargas usando jatinho de doleiro não surpreendem. O que causa surpresa é o posicionamento da ex-revolucionária Dilma Roussef na defesa da Lei antiterror (PLS 499/2013), apresentada em favor da FIFA, que visa garantir a realização dos jogos da copa do mundo em junho de 2014, e a resistência ao Projeto de Lei que pretende a revisão da lei da anistia (PLS 237/2013), de autoria do senador Randolfe Rodrigues (PSOL/AP). A Lei de Anistia, de 1979, perdoou os crimes, dentre eles a execução e a tortura, cometidos por agentes do Estado durante a ditadura.
Mas o fato mais relevante nos 12 (doze) anos de Governo do PT, são as jornadas de junho de 2013, que se iniciou nas capitais e se espalhou por todo país. O poder político e militar do Estado não foi capaz de segurar as massas que foram às ruas dizer que a gente não quer só comida. Infelizmente, o PT se contentou em garantir para boa parte dos brasileiros bolsa família, virando as costas para a construção de uma sociedade mais justa. Reforma agrária, mobilidade urbana, tarifa zero para transporte, justa distribuição de renda e reforma urbana foram extirpados de seu programa. Curiosamente, as reformas de base anunciadas por João Goulart no Comício da Central do Brasil motivaram o golpe militar e 50 anos depois ainda estamos reivindicando as mesmas coisas. A diferença é que nos últimos 12 (doze) anos o Governo dito dos trabalhadores segurou e reprimiu ainda mais estas demandas, controlando as massas e boa parte das lideranças.
Neste sentido, as jornadas de junho representam o sopro de morte do PT enquanto partido de esquerda. Pode ser que, em virtude do fisiologismo e do enraizamento que o aparato de Estado proporciona, o partido se mantenha no poder, mas jamais conseguirá representar novamente os trabalhadores e a esquerda deste país. A estrela perdeu o brilho. Como bem disse a camarada Luciana Genro, falando no Encontro Nacional Espaço Unidade de Ação: "Junho mostrou que o PT não controla mais o movimento de massas. O PT perdeu a capacidade de impedir as lutas sociais no Brasil." (https://www.facebook.com/photo.php?v=722784267766477). As jornadas de junho de 2013 abriram a porteira para que outros movimentos eclodissem e o povo brasileiro está, mais uma vez, experimentando a força da organização popular e, apesar da traição sofrida com o PT, avança pela esquerda. Ditadura, nunca mais.
* Advogado, Secretário de Ecossocialismo e Cultura do PSOL/MG.
- Toda a opinião expressa neste espaço é de total responsabilidade de quem a emite.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

18
24-
11
22-
03
08
07
09
15
WELLS---160816
B
05
Yama-16.03.14
13
E

 

 

 

 

Leia mais

Municipal de Passos termina...
PASSOS (MG) - O Campeonato Municipal de Futebol de Passos será encerrado neste domingo (17), no Estádio Starling Soares, com as partidas finais nas duas categorias. No primeiro jogo da rodada dupla, pelo Varziano, às 8h30, se enfrentam Portuguesa e Oriente. Na sequência, Novo Horizontino e Fluminense vão disputar o...
Governo de MG divulga nota...
BELO HORIZONTE - Em nota, divulgada pela Assessoria de Imprensa do governo de Minas Gerais, a própria administração estadual afirmou que "não vai medir esforços para cumprir os compromissos assumidos junto aos servidores e aos cidadãos mineiros, com equilíbrio, trabalho e planejamento. O governo do...
Lacerda é recebido por...
BELO HORIZONTE (MG) - Após percorrer mais de 100 cidades mineiras nos últimos seis meses, o ex-prefeito de Belo Horizonte e, hoje, pré-candidato ao governo de Minas Gerais pelo PSB, Marcio Lacerda, visitou essa semana seis cidades das regiões Sul e Sudoeste do estado. Entre os dias 11 e 14 Marcio passou por Carmo do Rio Claro,...
Fechamento de escolas pode...
BELO HORIZONTE (MG) - Setenta alunos com deficiência de Monte Santo e Arceburgo, municípios da região Sul de Minas, poderão ficar sem escola de atendimento especial no ano letivo de 2018. A denúncia foi feita nesta dia 12, em reunião da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da...
Carmo: Feiras itinerantes...
CARMO DO RIO CLARO (MG) - Foi aprovado em primeira deliberação o Projeto de Lei (PL) número 55/2017 que regulamenta a realização de feiras itinerantes e temporárias no município. Também foram aprovadas emendas propostas pelos vereadores, dentre elas, a que garante o atual formato adotado pela feira...
Vagas de emprego disponíveis...
PASSOS (MG) - Confira as vagas de emprego no setor de captação do Sistema Nacional de Emprego (Sine) localizado no posto da Unidade de Atendimento Integrado (UAI) de Passos, na Rua dos Engenheiros, 119, Bairro Belo Horizonte, telefone (35) 3526-5955: Cód. - Vaga - Ocupação e Observações - Nº de...
Cássio destina recursos a...
BELO HORIZONTE (MG) - Trabalhando para o fortalecimento das entidades de Carmo do Rio Claro, o deputado estadual Cássio Soares destinou via emenda parlamentar R$ 20 mil ao Centro de Formação São José - Promoção da Família, e R$ 25 mil para o Lar do Idoso Frederico Ozanam, o que totaliza R$ 450 mil...
Balé do CPN se apresenta...
PASSOS (MG) - Nesta quinta-feira (14), acontece a apresentação do grupo de balé do Clube Passense de Natação (CPN), com o espetáculo 'Alice no País das Maravilhas'. Aproximadamente 90 crianças vão dançar e saltar no salão social, a partir das 20h. Esta é a...
Café: MG ganha Unidade de...
PASSOS (MG) - Maior estado produtor de café do Brasil, Minas Gerais agora conta com uma Unidade de Torrefação e Processamento do grão. Inaugurada nesta quarta-feira (13) no Campo Experimental da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) em Machado, no Território Sul, a unidade vai otimizar a...
Vereador fiscaliza transporte...
CARMO DO RIO CLARO (MG) - De abril a dezembro de 2017, o vereador Paulo Marcelo Silva realizou, em quase todas as linhas escolares, uma fiscalização do transporte oferecido pelas empresas terceirizadas. O trabalho fez-se necessário diante de uma denúncia feita na Câmara Municioal de que o Poder Executivo estaria...